22 de dezembro de 2007

E D I T

Pessoas adoram o cinema porque na tela existe edição.

Não existe edição na vida.

Entre acordar e sair de casa, são minutos enfadonhos.

Entre o beijo e o sexo, minutos dispensáveis.

As explosões sempre são impressionantes.

As cores, todas na melhor definição.

E existe a trilha sonora.

Mas penso comigo...

... para cada duas horas de filme, há quinze minutos de créditos.

São as correções.

Porque um filme mal feito é um fracasso de bilheteria.

E viver é de graça.

21 de dezembro de 2007

Capim

13 horas sentado em frente ao ecram, trabalhando.

Isso mesmo: trabalhando.

Poderia estar na casa da nAMORada junto de gente querida, mas cá estou.

Porque a responsabilidade pelo resultado final deste serviço é minha.

Estranho exagero o meu, este de às vezes passar horas sem ter idéia do que fazer, e de repente estou aqui, produzindo; e esqueço de comer, de tomar banho, de descansar; e talvez não durma.

É assim com o design, com a música, com os pequenos detalhes; e com as coisas que me incomodam.

Pois passei quase todos os dias desta semana arrancando o capim do quintal; quase porque hoje tive de escolher produzir estas imagens enormes, todas para ontem.

Mas a imagem do capim enorme lá fora me incomoda; este motivo basta. O capim dançando ao vento.

E capim se arranca com a mão.

Há quem insista em bater enxada, mas não eu; eis a minha teimosia.

Tenho mãos e braços e pequenos cortes e dores no corpo; a pele irritada. Estou satisfeito.

Penso que mereço uma cerveja, mas não bebo. Penso e isto basta. Para estas coisas não espero, não quero reconhecimento nem medalha de honra ao mérito. Não é para os outros o que faço.

Este algo que incomoda é um agente de mudança.

Quero ser melhor; pessoa, filho, amigo, namorado, irmão, transeunte, cidadão, homem. Ser melhor talvez seja entender-me tão fragmentado.

E nesta busca, quando eu voltar de viagem, lá estará o capim, dançando ao vento. Ou a memória dele, uma variante do mesmo problema. Problema nenhum, no fim das contas. Porque eu também estarei lá.

... lembro com carinho de uma carta que minha avó, Inês, escreveu há muitos anos. A única carta dela. Terminava seu texto escrevendo "eu sou uma coluna que ainda não caiu". Assim termino, também, o meu.

Eu sou uma coluna que ainda não caiu.

12 de dezembro de 2007

Só lamento

Dia de Sol que logo esfria e o cinza invade o céu.
Tarde de chuva que logo abafa a atmosfera.
Bichos em suas tocas.
Mosquitos nas poças d'água.
Efeito estufa, engarrafamento, engavetamento, afogamento, inundação.
Desgraça pouca.
O ranger dos dentes.
Um frio nas juntas.
O gosto da fome na boca.
E o cheiro da chuva (não é da chuva - são esporos).
Um abalo sísmico ao longe.
Os nervos da coluna, todos sobrecarregados.
Ombros arqueados por causa de um peso invisível.
A gravidade em pequenas doses.
Uma gota de cada vez na testa.
De tudo um pouco.
Sou eu o ombudsman da natureza.
Deixe seu recado.
Pegue a senha.
Espere sua vez.
Volte amanhã.
Deixe para depois.
Esqueça.
Hoje é um bom dia para amar, ser amado, comer jabuticaba, beijar na boca e dormir acompanhado.
Pode ser o aniverário de alguém.
De um amigo.
Do ilustre desconhecido da porta ao lado.
Do porteiro.
Do sujeito que faz a manutenção do caixa automático mais próximo da sua casa.
Pode ser um dia qualquer.
Todo dia é um dia qualquer.
Eis o milagre.
Oremos.

10 de dezembro de 2007

Auto-ajuda: invente a sua.

Comece desejando bom dia para si mesmo.

Sorria para o espelho.

Pense que a água do chuveiro lava o corpo, a alma, o espírito, a mente.

Massageie a cabeça delicadamente, passe a mão nos cabelos, seja carinhoso consigo.

Respire pelo nariz. Evite respirar pela boca.

Dê uma bela espreguiçada. Se tiver tempo, alongue-se.

Coma devagar. Alimente-se. Absorva. Aprecie.

Se estiver com pressa, espere um pouco.

Se estiver atrasado, espere um pouco mais.

Vista-se com roupas confortáveis.

Seja educado dentro e fora de casa. Seja cordial. Cumprimente as pessoas. Comunique-se.

Se estiver frio, tire o casaco. Se estiver calor, vista-o.

Observe. Perceba. Olhe. Enxergue.

Se ama, deixe que a pessoa amada saiba.

Permita-se ser amado.

Aprenda a perdoar.

Viva. Viver é agora.

Seja feliz.

...

Amém.

7 de dezembro de 2007

Hmmm

Um som que vem da nuca, bate nos olhos, sai pela culutra e irrita os ouvidos; uma voz ruidosa ao fundo, misturada com o som da televisão ligada, o rádio fora de sintonia, uns dois ou três diálogos ininteligíveis; a paciência fritando, a luz vermelha que acende; cocôtidiano.

Sorte de quem não sente a pressão do tempo, aquela dor no osso, nos músculos, alguma coisa. O nerrrvo exposto. Que vontade de mandar tudo à merda. Claro que é vontade. Mandar à merda mesmo é outro papo.

Chega de papo, de conversa, de discussão, de debate. Debater é muito peixe fora d'água.

Um basta não resolve; mais de um basta parece exagero. Uma bosta, então. E este cheiro de legumes cozidos no ar, uma preguiça de ficar puto. Hoje é dia de falar palavrão.

Um antro de mosquitos na água verde empoçada na casa do vizinho; um tanque para carpas, talvez; mania de velho com dinheiro essa de emperequetar o quintal; essa mania besta encostada no muro da minha casa.

Cada um com seus mosquitos, penso.

São vermes nadando dentro do meu olho esta saudade de ver o mar. São cagoetes meus esta coceira nas juntas dos dedos, esta vontade de tocar; são dez e vinte da manhã. Ouço uma gravação de amigos tocando juntos, ouço mesmo?

Já não sei mais no que presto atenção.

6 de dezembro de 2007

Segundona

Timão na segunda divisão. Não adianta guardar a camiseta oficial no fundo do armário, não basta desligar os aparelhos de televisão e rádio, evitar os amigos na rua, os olhares atravessados; o torcedor que ama seu time fica de bode, curte a fossa, chora e afoga as mágoas. E tenta aprender algo de bom com isto sem qualquer resquício conformista.

Que sirva de lição a tragédia conrintiana; isto significa que qualquer time da primeira divisão que jogar pra perder vai cair, e isto é bom para o esporte. O profissionalismo provinciano dos clubes merece o susto, carece de reflexão; necessita para ontem de boa qualidade, dentro e fora do campo.

Um brinde à saída do Dualib, ao fim da parceria com a MSI (lê-se formação de quadrilha), ao resgate da dignidade Fiel e ao torcedor que assistiu a esta lenta sangria sem medo e que não abandonou seu posto.

Vamos ao título inédito: campeão da segunda divisão!

Timão é Timão até na segundona - "eternamente dentro dos nossos corações".

P.S.: ano que vem cai um time do Rio, no esquema revezamento. Aguardem.

Obs: há mil dias do centenário, hoje.

29 de novembro de 2007

Um amor

É o mundo, o tudo, o nada, o que basta sem bastar, inominável, indescritível, incrível, uma coisa, um frio na barriga, um toque, um sopro, uma palavra, um sussurro, o gosto, o gostar, doçura que não enjoa, o amargo da língua, todas as formas da matéria, e o que não é matéria também, um choque, um espaço, um tempo, um inteiro, todas as formas, e o que não é forma, a luz, o fazer, o bem, as flores em seu ombro, as estrelas em seu corpo, os astros, o infinito até o fim, um gesto, uma música, um som, o vácuo, os elementos, as cores, inclusive as que não enxergo, o sotaque e o sutaque, os números, as equações, as notas de uma partitura não escrita, a memória, a lembrança, o sorrir, o chorar também, o abraço mais apertado, o elo, o nós, eu e você, o agora, o sempre, o nunca que te largo, o córação, um algo mais, o tanto que, o nosso, o sono, um mais um, o que é, e o que não é também, não é pouco, é o título, o tema, é a regra e a exceção.

Não sei explicar como a combinação de quatro letras dá nisso.

Mas acredito: você é o amor.

É isso.

28 de novembro de 2007

Two Of Us

Se p'ra bom entendedor, meia palavra basta:

E_ AM_ VO__!

27 de novembro de 2007

Plasmando

Obrigado pela compreensão.

Repito esta frase na esperança de que um dia acredite nela; se espero por algo, certamente é pelo ônibus, que às vezes atrasa; espero que as mudas de grama que plantei prosperem; que a pata do meu cachorro melhore mais uma vez, porque o bicho se recusa instintivamente a recuperar-se por completo; espero por esporte; e corro atrás do que é de minha responsabilidade.

Faço força para frente, na esperança de superar minhas limitações; uma força contrária, a reação natural de minha própria força; esta força que me prende ao chão e ilustra ao mesmo tempo o que é força e fraqueza; uma força para trás.

Às vezes correr parece uma boa idéia, mas às vezes a vontade é de cair e não levantar; o senso de humor oscila entre o rir e o rir para não chorar, chorar de alegria, contentar-se com as pequenas conquistas diárias; cair no chão e seguir rastejando, em guerra; às vezes tanto exercício mental é o que impede o movimento.

Eu passei muito tempo observando nuvens, desenhando meus pensamentos nelas; um sopro levou-as embora e tudo ficou claro; isto é muito bom.

Foram boas escolhas, até a pior delas; mas elas não me servem mais, são camadas das quais me despi e mantê-las é um desperdício; estão todas à sua disposição, fique com elas se tiver vontade.

Atenciosamente,
B.

23 de novembro de 2007

Estação Luz

Ele realmente acreditou por anos que seu filho era um ser iluminado, até o dia que uma luz acendeu e ele viu o que era o filho dele.

O outro realmente enxerga em seu filho um Buda naquela pequena tranquilidade; são os pais que não suportam o sossego dos filhos, não o contrário.

Um deles foi buscar a iluminação do outro lado do mundo, e lá descobriu que o mundo sempre tem um lado escuro.

Nos recusamos a acreditar que existe noite em cada um de nós, mas não somos geladeiras.

Falo por mim: não sou uma Brastemp. Não há nada de errado nisto.

E se não conseguimos ver a luz no fim do túnel, é porque, se pensarmos direito, não há túnel.