Capim
13 horas sentado em frente ao ecram, trabalhando.
Isso mesmo: trabalhando.
Poderia estar na casa da nAMORada junto de gente querida, mas cá estou.
Porque a responsabilidade pelo resultado final deste serviço é minha.
Estranho exagero o meu, este de às vezes passar horas sem ter idéia do que fazer, e de repente estou aqui, produzindo; e esqueço de comer, de tomar banho, de descansar; e talvez não durma.
É assim com o design, com a música, com os pequenos detalhes; e com as coisas que me incomodam.
Pois passei quase todos os dias desta semana arrancando o capim do quintal; quase porque hoje tive de escolher produzir estas imagens enormes, todas para ontem.
Mas a imagem do capim enorme lá fora me incomoda; este motivo basta. O capim dançando ao vento.
E capim se arranca com a mão.
Há quem insista em bater enxada, mas não eu; eis a minha teimosia.
Tenho mãos e braços e pequenos cortes e dores no corpo; a pele irritada. Estou satisfeito.
Penso que mereço uma cerveja, mas não bebo. Penso e isto basta. Para estas coisas não espero, não quero reconhecimento nem medalha de honra ao mérito. Não é para os outros o que faço.
Este algo que incomoda é um agente de mudança.
Quero ser melhor; pessoa, filho, amigo, namorado, irmão, transeunte, cidadão, homem. Ser melhor talvez seja entender-me tão fragmentado.
E nesta busca, quando eu voltar de viagem, lá estará o capim, dançando ao vento. Ou a memória dele, uma variante do mesmo problema. Problema nenhum, no fim das contas. Porque eu também estarei lá.
... lembro com carinho de uma carta que minha avó, Inês, escreveu há muitos anos. A única carta dela. Terminava seu texto escrevendo "eu sou uma coluna que ainda não caiu". Assim termino, também, o meu.
Eu sou uma coluna que ainda não caiu.