30 de outubro de 2007

11

O amor sem você não é
Assim como 1+1=2
E dois 1 separados não são 11.

25 de outubro de 2007

Um instante

Formas irreconhecíveis no ar, e o Sol atrás das cortinas, e o reflexo da lua à esquerda do horizonte, e um carro pisca-piscando à direita, faz a curva e some; e o ronco do motor diz que a correia dentada está banquela, os acentos gastos corrompem o vocabulário, e o papel do fax apagou lentamente as mensagens, e o pedido de socorro, meu amor, só com senha.

A responsabilidade de manter-me em pé nos desníveis, a vontade de plantar bananeira e sair na rua, o grito miúdo nas cordas vocais ressecadas, um instante antes de desmaiar no sofá numa posição desconfortável; o saber que você não só ouviu o tanto que falam mal de mim, mas que acredita no que disseram.

Minha voz rachada, meus dentes apinhados, os lábios em bico; um som abafado nas caixas acústicas e um telefonema, um engano, o tom de discar; desafinado.

I'm sorry
Porque você sofre.

Fico contente porque você liga e me conta sobre o nosso amanhã, fico mais calmo depois de escrever no bloco de notas e ler em voz alta; somo nozes. Eu escrevo errado mesmo e falo grave porque sou uma pessoa séria, não rio de qualquer besteira, não acho graça.

Aliás, eu acho graça, sim, mas ninguém sabe. Ninguém sabe da minha vida. Só você. Não é pouco.

É isso.


23 de outubro de 2007

Falando p'ra dentro

Corto as unhas, não suporto resíduos embaixo delas, não sei como me disponho a fazer trabalhos manuais; talvez os faça para lavar as mãos, não as lavaria se não precisasse. O meu desleixo natural tornou-se o pretérito perfeito, distante do que sou hoje. Mas talvez amanhã eu não mais queira ser isto, talvez eu acorde e faça a barba, se é que posso chamar esta coleção de pelos de barba; talvez eu corte o cabelo. Não.

Não sou empreendedor quando o assunto é minha imagem, não gosto de mudanças drásticas; tenho prazer em observar os processos graduais. Presto atenção no e-mail que demora, ouço o fritar do bife na frigideira, aprecio o som de um carro antes de passar por mim, que passa e segue; as variações sonoras desta ação.

Se me deixar quieto, ouço um grito estridente dentro da cabeça, uma prece para que você tenha um bom dia; que crie juízo, que seja feliz.

Interferência mesmo, só entre o blindex do banheiro e a parede. Nenhum sinal.

Mas não se preocupe, não há nada aqui tão esquisito; nenhum agente de transformação, nenhuma força extraordinária; só água morna e vapor. E meus pensamentos impuros escorrendo pelo ralo.

Se me proponho a sair de casa n'um dia de chuva, é por sua causa; não há esforço.

Quem reclama dos efeitos da água sobre o cabelo, a roupa, os sapatos; sobre as cores desbotadas e nuvens puídas, reviste seus bolsos e saiba que pobre mesmo é o espírito; o reflexo distorcido não disfarça nossa humana monstruosidade.

E dou-me o luxo de estar enganado: também gosto das mudanças drásticas.

22 de outubro de 2007

Os Nervos

Sabe como é
Eu não sei
São os nervos
Os nervos à flor da pele
Uma flor vermelha
De sangue
De corar as faces
De pensar na calada da noite
Em frente à TV
De pensar "no que mesmo?"
Na pele que estica-e-encolhe
Entre ondas de calor
E tropéis de frio
De saudade
Nervos em flor
Dos quais eu cuido sem pensar
E de tanto refletir
Cá estou; cego
É o seu brilho ao longe
O cruzeiro em que nos encontramos
Marco do nosso destino
Viagem de instrução
O calor do seu ventre
Em meus braços
A marca dos seus dentes
Nas palavras
A ponta da faca na língua
E um gesto
Um golpe de misericórdia
Eu me vejo no reflexo da faca.

16 de outubro de 2007

Sigilo

Vou te contar um segredo
Que não posso tê-los
São os pêlos tortos da minha barba
As pontas duplas dos meus cabelos
E a cabeça de vento
Arejada e cheia de espaço
Para você ocupar
Com cantigas e risadas
E olhares meigos
Meio sem jeito
Que ficamos
Com as pernas para o ar
E as mãos para nós mesmos
No tempo seco em que nada mofa
No horário de verão que é sempre cedo
Que logo fecha quando vamos embora
Velhas portas cheias de ruídos
Em que repousam memórias
Impressões digitais
E os nossos gemidos
...

15 de outubro de 2007

Maçã

O fruto proibido
É o mesmo fruto
Com o qual presenteamos
Nossos mestres
...

12 de outubro de 2007

Santa Padroeira

Sou feliz
Porque sou feliz
E não vou explicar para você
Sou feliz e isto basta
Sou feliz
Porque sou feliz
Não há o que explicar para ninguém
Sou feliz e isto basta
Feliz e mais nada

Lalalalalalalalalalalalalalalalalá
Sou feliz e isto basta
Que o mundo exploda
Muita gente morra
Foda-se os outros e você
Sou feliz e isto basta
Feliz e mais nada

Porque o que me importa
Sou eu e eu e eu
E não me interessa
Se Elvis não morreu
Porque o que me importa
Sou eu e eu e eu
Fodam-se Julietas
Fodam-se Romeus

Porque sou feliz
Porque sou feliz
Não há o que explicar para você
Sou feliz e isto basta
Sou feliz
Feliz feliz
Não há o que explicar para ninguém
Sou feliz e isto basta
Feliz e mais nada
...

escrevi aos 15, e depois de 15 anos faz sentido.

Nossa Senhora Aparecida, rogai por nós...
AMÉM!

4 de outubro de 2007

O sonho acabou, só tem pão doce...

Sinto-me inclinado a torcer por este jovem sonhador, este lunático.

2 de outubro de 2007

Vou estar verificando...

"Decreto nº 28.314, de 28 de setembro de 2007.

Demite o gerúndio do Distrito Federal, e dá outras providências.

O governador do Distrito Federal, no uso das atribuições que lhe confere o artigo
100, incisos VII e XXVI, da Lei Orgânica do Distrito Federal, DECRETA:

Art. 1° - Fica demitido o Gerúndio de todos os órgãos do Governo do Distrito Federal.
Art. 2° - Fica proibido a partir desta data o uso do gerúndio para desculpa de INEFICIÊNCIA.
Art. 3° - Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 4º - Revogam-se as disposições em contrário.

Brasília, 28 de setembro de 2007.

119º da República e 48º de Brasília
JOSÉ ROBERTO ARRUDA"

1 de outubro de 2007

TU(do)

Everything is, everything is...

Vai que chove
Que o céu resolve cair
Desabar sobre nós
Chorar as mágoas
Errar de bar em bar
Em mesas e cervejas.

Não sei até que ponto a natureza nos diz respeito
Mas se dois pontos formam uma reta mesmo
Tracemos um jeito de sair daqui.