25 de outubro de 2007

Um instante

Formas irreconhecíveis no ar, e o Sol atrás das cortinas, e o reflexo da lua à esquerda do horizonte, e um carro pisca-piscando à direita, faz a curva e some; e o ronco do motor diz que a correia dentada está banquela, os acentos gastos corrompem o vocabulário, e o papel do fax apagou lentamente as mensagens, e o pedido de socorro, meu amor, só com senha.

A responsabilidade de manter-me em pé nos desníveis, a vontade de plantar bananeira e sair na rua, o grito miúdo nas cordas vocais ressecadas, um instante antes de desmaiar no sofá numa posição desconfortável; o saber que você não só ouviu o tanto que falam mal de mim, mas que acredita no que disseram.

Minha voz rachada, meus dentes apinhados, os lábios em bico; um som abafado nas caixas acústicas e um telefonema, um engano, o tom de discar; desafinado.

I'm sorry
Porque você sofre.

Fico contente porque você liga e me conta sobre o nosso amanhã, fico mais calmo depois de escrever no bloco de notas e ler em voz alta; somo nozes. Eu escrevo errado mesmo e falo grave porque sou uma pessoa séria, não rio de qualquer besteira, não acho graça.

Aliás, eu acho graça, sim, mas ninguém sabe. Ninguém sabe da minha vida. Só você. Não é pouco.

É isso.