23 de outubro de 2007

Falando p'ra dentro

Corto as unhas, não suporto resíduos embaixo delas, não sei como me disponho a fazer trabalhos manuais; talvez os faça para lavar as mãos, não as lavaria se não precisasse. O meu desleixo natural tornou-se o pretérito perfeito, distante do que sou hoje. Mas talvez amanhã eu não mais queira ser isto, talvez eu acorde e faça a barba, se é que posso chamar esta coleção de pelos de barba; talvez eu corte o cabelo. Não.

Não sou empreendedor quando o assunto é minha imagem, não gosto de mudanças drásticas; tenho prazer em observar os processos graduais. Presto atenção no e-mail que demora, ouço o fritar do bife na frigideira, aprecio o som de um carro antes de passar por mim, que passa e segue; as variações sonoras desta ação.

Se me deixar quieto, ouço um grito estridente dentro da cabeça, uma prece para que você tenha um bom dia; que crie juízo, que seja feliz.

Interferência mesmo, só entre o blindex do banheiro e a parede. Nenhum sinal.

Mas não se preocupe, não há nada aqui tão esquisito; nenhum agente de transformação, nenhuma força extraordinária; só água morna e vapor. E meus pensamentos impuros escorrendo pelo ralo.

Se me proponho a sair de casa n'um dia de chuva, é por sua causa; não há esforço.

Quem reclama dos efeitos da água sobre o cabelo, a roupa, os sapatos; sobre as cores desbotadas e nuvens puídas, reviste seus bolsos e saiba que pobre mesmo é o espírito; o reflexo distorcido não disfarça nossa humana monstruosidade.

E dou-me o luxo de estar enganado: também gosto das mudanças drásticas.